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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma temporada no inferno - Trecho


Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. — E encontrei-a amarga. — E insultei-a.
Levantei-me em armas contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
Consegui extirpar de meu espírito toda esperança humana. Pulei sobre toda alegria, para estrangulá-la, com o salto silencioso da fera.
Chamei os carrascos para, ao morrer, morder a coronha de seus fuzis. Chamei os flagelos para afogar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu deus. Chafurdei na lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera me trouxe o pavoroso riso do idiota.
Recentemente, quando me encontrava nas últimas, pensei procurar a chave do antigo festim, onde talvez eu recobraria o apetite.
A caridade é a chave. Esta inspiração prova que eu sonhava!
“Continuarás sendo hiena, etc...”, exclama o demônio que me coroou com tão amáveis papoulas. “Recebe a morte com todos seus apetites, e teu egoísmo e todos os pecados capitais”.
Ah! foi o que fiz, e em excesso: — Mas, caro Satã, eu te conjuro; um olhar menos irritado! e, na espera de algumas pequenas infâmias em atraso, para ti que preferes no escritor a ausência de faculdades descritivas ou instrutivas, eu destaco algumas folhas horrendas de meu caderno de condenado.

Arthur Rimbaud. Tradução de Janer Cristaldo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

No Inferno (excertos)


Mergulhando a imaginação nos vermelhos Reinos feéricos e cabalísticos de Satã, lá onde Voltaire faz sem dúvida acender a sua ironia rubra como tropical e sanguíneo cactos aberto, encontrei um dia Baudelaire, profundo e lívido, de clara e deslumbradora beleza, deixando flutuar sobre os ombros nobres a onda pomposa da cabeleira ardentemente negra, onde dir-se-ia viver e chamejar uma paixão. (...)
A boca, lasciva e violenta, rebelde, entreaberta num espasmo sonhador e alucinado, tinha brusca e revoltada expressão dantesca e simbolizava aspirar, sofregamente, anelantemente, intensos desejos dispersos e insaciáveis. (...)
Mas, a sua atitude serena, concentrada, isolada de tudo, traía a meditação absorvente, fundamental, que o encerrava transcendentemente no Mistério.
E eu, então, murmurei-lhe, quase em segredo:
— Charles, meu belo Charles voluptuoso e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen, profeta muçulmano do Tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e delicado! Onde está aquela rara, escrupulosa psicose de som, de cor, de aroma, de sensibilidade; a febre selvagem daqueles bravios e demoníacos cataclismos mentais; aquela infinita e arrebatadora Nevrose, aquela espiritual doença que te enervava e dilacerava? Onde está ela? Os tesouros d'ouro e diamante, as pedrarias e marchetarias do Ganges, as púrpuras e estrelas dos firmamentos indianos, que tu nababescamente possuíste, onde estão agora? (...)
Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Augusto e tenebroso Vencido! Inolvidável Fidalgo de sonhos de imperecíveis elixires! Soberano Exilado do Oriente e do Letes! Três vezes com dolência clamado pelas fanfarras plangentes e saudosas da minha Evocação! Agora que estás livre, purificado pela Morte, das argilas pecadoras, eu vejo sempre o teu Espírito errar, como veemente sensação luminosa, na Aleluia fúlgida dos Astros, nas pompas e chamas do Setentrião, talvez ainda sonhando, nos êxtases apaixonados do Sonho...

Cruz e Souza, em Evocações (Edição póstuma - 1898).

Clique AQUI para baixar a edição completa de Evocações, belíssimo livro de poesia em prosa que não pode deixar de ser lido.

domingo, 26 de junho de 2011

Gitanjali - Poema 58

Deixa que todos os acordes da alegria misturem-se no meu último canto – o júbilo que faz a terra transbordar no excesso violento da relva; o júbilo que dispõe  a vida e a morte – irmãs gêmeas – dançando juntas pelo mundo imenso; o júbilo que arrebata como a tempestade, sacudindo e despertando a vida numa gargalhada; o júbilo que repousa silencioso como as suas lágrimas dentro   do lótus entreaberto e vermelho da dor; o júbilo que atira ao pó tudo quanto possui e que não se traduz em palavras.

Rabindranath Tagore, em Gitanjali (3ª Edição). Poema 58. Coordenada – Editora de Brasília. Tradução de Gasparino Damata.

Obs: Conheça melhor esse magnífico poeta indiano clicando AQUI.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Embriaguem-se


É preciso estarem sempre embriagados. Aí é que tudo está: esta é a única questão. Para não sentirem o horrível  fardo do Tempo que lhes quebra os ombros e recurva  o dorso, precisam embriagar-se sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à sua guisa. Mas embriaguem-se.
E se, de vez em quando, vocês acordarem na escada de um palácio, na relva verde de uma vala ou na morna solidão do seu quarto, tendo a embriaguez já diminuído ou desaparecido, perguntem ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntem que horas são, e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-lhe-ão: “É hora de embriagar-se! Para não serem escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude,  à sua guisa”.

Charles Baudelaire, O Esplim de Paris: Pequenos poemas em prosa. Ed. Martim Claret. Tradução de Oleg Almeida.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meus poemas nascem sangrando


                                Sentir, sinta quem lê
                         Fernando Pessoa


          Como pode descer dos céus um poema assim mesmo feito um raio? Seria presente dos deuses ou condenação sumária? Viver permanentemente atado aos desejos de outrem...
          Não, senhores, o poema não é um dom divino. Antes ele é uma conquista, fruto da imaginação e da destreza do poeta. O poema também não é o sentir, antes ele é o sentido. Mas quem quiser que sinta! Eu transpiro enquanto escrevo.
          Meus poemas nascem sangrando.