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terça-feira, 20 de novembro de 2012

SALVADOR ABAIXO DE ZERO


Por Henrique Wagner*

Há um velho palhaço pançudo que circula pela praça do Campo Grande, muito bem caracterizado, vendendo brinquedos baratos, mas com um ar de enfado terrível. Volta e meia para num ou noutro poste e acende um cigarro. Um palhaço velho, cansado, fumando e vendendo brinquedos numa das mais importantes e populares praças da Bahia. Esse palhaço, que não sei se ainda vive nesse exato momento, representa muito bem uma cidade grande mutilada por seus governantes e pelo descaso com a cultura e a educação de nossas décadas. Esse palhaço é atual. Visão cruel, impiedosa, de algo originariamente engraçado.
            O novo livro de Herculano Neto, SALVADOR ABAIXO DE ZERO (lançado dia 13/11), é esse palhaço, é essa cidade atual. É essa Bahia sem abadá, a pele de ébano que é a alma nua do baiano do bairro da Liberdade (cidade média, diria Herculano): é essa alegria trágica e essa piada sem graça. Herculano, em seu pequeno volume de contos curtos, é um ficcionista com mão suja de papel de jornal o mais barato. Seu livro, deliberadamente pulp, é marcado por uma deliciosa linguagem jornalística, ágil, fluente, e cada um dos pequenos textos parece uma notícia. E uma notícia chocante, sobretudo quando não choca.
            Primeiro a registrar, em literatura, o termo “Pituaço”, essa ortoepia inventada pelo povo para evitar a rima, num dos contos do livro. Herculano Neto é atualíssimo e atualiza seus leitores, naturalmente. Pode-se dizer, sem embargo, que Herculano é um repórter, e quase estamos diante de um jornalismo literário, mais para Hunter Thompson do que para Tom Wolfe. Essa marca humana faz com que o leitor se identifique de imediato com o texto, a ponto de seguir uma história não só pelo que há de bem engendrado em literatura, mas pelo que há de verossímil e de utilidade pública. Um escritor é, antes de qualquer coisa, um cronista de seu tempo. O que seria da Bahia dos anos 40 e 50 sem Jorge Amado? Uma Bahia registrada por historiadores; portanto, sem a arte e o estilo de um ficcionista. Aprender sobre a Bahia com Jorge Amado é muito mais prazeroso que aprendê-la com Theodoro Sampaio ou até mesmo com José Valladares, que tinha uma escrita saborosíssima.
            Baiano sem nostalgias, urbano com vista para o recôncavo, de onde viera, Herculano Neto inscreve Salvador no rol das grandes metrópoles literárias, ao lado do Rio de Janeiro de Rubem Fonseca e da São Paulo de Marcos Rey. Seus contos são citadinos, mas de passagem, uma vez que é possível sentir o pincel do santo-amarense aqui e ali. E é russo por seguir os preceitos do conto tchecoviano, com seus finais dissimulados, silenciosos.
            Sua primeira pessoa é devastadora. Insere subitamente o leitor na história, no livro, no bolso. Admirável habilidade para vestir personas, ser a pessoa do texto – e todo tipo de pessoa. Se a narrativa na primeira pessoa, de um modo geral, tem fácil capacidade para aumentar a identificação do homem de cidade grande com o texto e o herói do texto, no caso de Herculano essa capacidade é catapultada com tremenda força em função da matéria compacta de que dispõe, em seus contos curtos, e da linguagem despojada de todo e qualquer maneirismo ou pessoas outras – que seriam fantasmas, em verdade; talvez de Canterville, talvez dos sonos culpados de um Scrooge.
            Cruel e engraçado como os palhaços de circo que fumam, ainda fantasiados, SALVADOR ABAIXO DE ZERO inventa uma Bahia hollywoodiana para desconstruí-la com a força com que Hollywood construiu e destruiu Marilyn Monroe. Uma Bahia existente, mas revelada em sua polpa pela escrita de um brutalista literário, termo usado por Alfredo Bosi para designar o estilo do mineiro Rubem Fonseca.
            Eis um livro que orgulha o baiano que tem vergonha de ser baiano, em certas ocasiões e lugares, e reinaugura uma cidade cheia de um ritmo frenético e decadente, cheia de uma literatura úmida e soturna, contrária ao sol de uma cidade que ainda tenta ser apenas litorânea.              

           (*) Professor, escritor, crítico de teatro e cinema

terça-feira, 20 de março de 2012

Música não se faz com a bunda

Ando cansado de ouvir dizerem que a música contemporânea da Bahia é o lixo do lixo do lixo. Trata-se de uma meia verdade, pois aqui, como em qualquer outro rincão do país, do mundo, há, evidentemente, o que se aproveite e o que se descarte. Portanto, música de gosto duvidoso não é um fenômeno unicamente baiano. É provável até que na Bahia de hoje, como durante muito tempo, o que se produza de melhor em relação à cultura seja mesmo música, mas não aquela, feita apenas com e para a bunda, cujos intérpretes mais parecem adestradores de macacos (sai do chão, sai do chão).
Por isso pego uma ponga no texto de Henrique Wagner para lhes apresentar Luciano Calazans, músico, compositor e arranjador, um contrabaixista maravilhoso, “que vem honrando, na contramão da cultura baiana de hoje, ou seja, fazendo sua contracultura, muito pessoal, com um baixo e uma banda de metais”. Segundo Wagner, Luciano Calazans “já foi considerado por vários críticos um virtuose do contrabaixo e gravou um delicioso Cd instrumental de canções suas, chamado Contra baixo astral”.
Para se comprovar o que afirmamos, vejam e ouçam a música do vídeo, gravado num show no Teatro Eva Herz, em Salvador.


Ouça, clicando aqui, outras canções do Luciano em seu site, onde também se poderá adquirir seus Cd e conhecer um pouco melhor o artista.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Bienal do Livro da Bahia vai até 06 de novembro


           Até 06 de novembro o público poderá conferir no espaço atividades voltadas para a educação e a cultura que incentivam o hábito da leitura e ações de responsabilidade social, além do trabalho de 385 expositores, entre editores, livreiros, distribuidores, veículos de comunicação e instituições do setor. Na programação, destaque para o Café Literário onde acontecem bate-papos com autores. Nomes como dos escritores Cristovão Tezza, Fabrício Carpinejar, Luís Augusto Fischer e Nelson Motta estão confirmados. Ainda estão programadas atividades infantis, sessões de autógrafos, lançamentos de livros e visitação orientada para escolas. Em face do seu centenário, como não poderia deixar de ser, o grande homenageado desta edição é o escritor baiano Jorge Amado.

Confira AQUI a programação. Na postagem abaixo uma crítica de Henrique Wagner à programação e à estética da Praça da Poesia e do Cordel dessa nesna Bienal.

sábado, 29 de outubro de 2011


Ótimo texto de Henrique Wagner sobre a Praça de Cordel e Poesia da Bienal do Livro da Bahia. Infelizmente, o mais puro retrato da literatura baiana atual, imersa em perigoso jogo de poder. É só CLICAR AQUI.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Seu Jorge bota a boca no trombone

Polemista, o poeta e crítico Henrique Wagner escreve sobre a triste cena ocorrida no último dia 17, proporcionada por Ricardo Castro, pianista e gestor da OSBA (Orquestra Sinfônica da Bahia), quando do Concerto de Natal no Teatro Castro Alves. Afirma HW que “a Osba corre perigo” e apela para que todos leiam.

Em sua coluna, no Expoart:
http://www.expoart.com.br/artigos/?idt1=33&idt2=col&idt3=henrique_wagner

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pólvora & Poesia

Henrique Wagner escreve sobre a peça de Fernando Guerreiro, montada a partir do premiado texto de Acides Nogueira sobre o romance entre Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. Assista ao texto do HW; vá ler a peça...

Texto na íntegra:
http://www.expoart.com.br/artigos/?idt1=11&idt2=col&idt3=henrique_wagner_teatro

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Henrique Wagner leva o Prêmio Walter da Silveira de Crítica Cinematográfica

Respeitado por escritores e dramaturgos por ser um crítico lúcido, embora sem papas na língua, o grande polemista Henrique Wagner abocanha agora o 1º lugar no Prêmio Walter da Silveira de Crítica Cinematográfica. Causou-me espanto (mas nem tanto) o silêncio da imprensa baiana com o fato.

Vamos em frente. O tempo não manda recados, mas é duro com a mediocridade reinante.

Eis o link dos textos: