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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Em algum lugar do paraíso


novíssimas crônicas de Veríssimo

Há quem diga que a crônica não se constitui como gênero literário, especialmente por ser, em princípio, um relato cronológico de fatos sucedidos, caracterizando-se como, digamos, a memória escrita, embora muitas possuam nitidamente alto grau de fabulação. Há vários tipos de crônicas, as que mais gosto são as humorísticas e as líricas, terrenos em que Luis Fernando Veríssimo vai muito, mas muito bem. Por isso o seu novo livro, Em algum lugar do paraíso (Objetiva, 184 pp., R$ 36,90), que traz 41 crônicas, todas inéditas em livro e escritas ao longo dos últimos cinco anos, era esperado com expectativa desde o anúncio da entrega dos originais para publicação. Nelas, o escritor fala sobre a vida, a morte, o tempo e o amor, sempre com um ar nostálgico e repleto de reflexões acerca das escolhas feitas ao longo da existência. O livro é cheio de personagens idiossincráticos e ao mesmo tempo banais. Todos possuem as mesmas inquietações, tão comuns a todo mundo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Última Crônica


Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Desenho com Luz


Nívia Maria Vasconcellos
Foto: Nívia Maria Vasconcellos
 Voltou pensando em Benjamim. Alternava tal pensamento com alguns versos de Barros e alguns trechos de uma música do Jobim. Estava confuso. O corredor parecia infinito, o que o felicitava. Aura; Difícil fotografar o silêncio; Eu, você, nós dois... Não sabia em verdade o que queria fazer, entrou na sala. A professora o olhou enviesado. Devia ser por causa do horário, havia já uma hora em que a aula começara e ele, com passos morosos, entrou parecendo querer continuar a chegar à sala. Boa noite! Disse a todos de forma quase inaudível. Não pediu desculpas, tirou apenas um fone do ouvido e ainda pensava e sussurrava trechos de versos de poemas e letras de músicas ao mesmo tempo em que algumas preocupações filosóficas tomavam o seu corpo. Abriu o caderno. Olhou com disfarçado desdém o quadro, fingiu dar importância àqueles rabiscos. Anotou algo. Desistiu. Sua mão coçava, queria pegar o Ensaios Fotográficos que trouxera na mochila. Lembrou dos fones, retirou-os. Não pegara o livro. Deu outra chance a professora, as suas palavras e a seus rabiscos. Mas, em seu caderno, pensamentos soltos pareciam nada ter a ver com a aula de Introdução à Fotografia à qual, naquele instante, submetia seu tempo. Adorava fotografia. Não pretendia ser um Sebastião Salgado. Apenas queria flagrar os seus cotidianos, não os dos outros. Certo dia, ao passar pela cozinha da casa de uma muy amiga, deparou-se com uma cena instigante: um pedestal sustentava um ferro de passar roupas antigo, ambos desgastados pelo tempo, mas ali como se tivessem ainda alguma utilidade. Imperceptível aos olhos de muitos, até mesmo de seus próprios donos. Decidiu dar-lhes, então, uma serventia. Pegou a sua Fujifilm semi-profissional e danou a tirar fotos dos mais diversos ângulos e distâncias. Queria eternizar a sua descoberta. Mas o que Walter Benjamin, Manoel de Barros e Tom Jobim têm a ver com um ferro de passar roupa sobre um pedestal? A professora cansou do seu abandono. Chamou-lhe atenção com tom severo. Queria integrá-lo à aula. Caro William, você poderia nos dizer quais são os elementos básicos da fotografia. Ele poderia. Claro que poderia. Olhou para todos os colegas de soslaio. Eles sabiam que ele poderia. Abriu a mochila. Afastou alguns objetos que lá estavam. Pegou tacitamente o exemplar de Pequena história da fotografia. Abriu-o, tirou dele e mostrou, antes de sair, a quem lá estava uma foto: uma parede envelhecida com canos e fios à mostra, um pedestal enferrujado à sua frente a suportar, não se sabe por quanto tempo, um ferro de passar roupas empoeirado e destituído para sempre da sua função de ferro...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quem Poderá nos Socorrer?


Nunca me senti tão inseguro. A violência que campeia a Bahia é fruto de grande descaso não apenas com a segurança, mas, sobretudo, com a educação.
Tenho a convicção de que a péssima situação encontrada em nossas escolas e a falta de apoio, sobretudo aos professores, que são obrigados a conviver cotidianamente com pressões políticas que facilitam a vida do alunado por conta dos índices do famigerado IDEB que precisam, a todo custo, serem elevados ano após ano, ainda que à custa do analfabetismo funcional da população, está na raiz do problema.
Para ser mais claro: as escolas estão aprovando alunos que não possuem a menor condição de avançar. O resultado prático reside no fato de que, sabendo de tal postura, parte dos jovens quando comparecem à escola, nem sempre participam das aulas e não se dedicam ao estudo.
Isso porque, quanto menos repetências e desistências a escola registrar, melhor será a sua classificação, numa escala de zero a dez. Sendo assim, se a escola passar seus alunos de ano sem que reúnam condições, ela estará colaborando para que o estado alcance suas metas e receba mais recursos.
            Desse modo, nossas salas de aula estão sendo habitadas por marginais mirins que desafiam o ambiente educacional, não colaborando com os professores, e o que é pior, levando armas e drogas para um espaço que deveria ser sagrado, mais sagrado que qualquer templo religioso.
Prova inconteste do que afirmo é o fato ocorrido com uma amiga, onde um aluno, insatisfeito por ter sido colocado para fora da sala por azucrinar o ambiente, atirou nela uma grande cesta repleta de lixo e dejetos de alimentos, fato que foi contemporizado pela direção escolar que, por sua vez, precisa aprovar o aluno ao final do ano, transformando-o em número saudável para o FUNDEB.
Por isso, e por outros motivos que não cabem nessa crônica, a notícia de que nos últimos dez anos a Bahia passou de décimo para o quarto estado mais violento do país, não me espanta.