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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Céu de Bombas


O poeta Jorge Elias Neto, em Janeiro de 2008, escreveu o poema Céu de Bombas, sobre o infindável conflito entre palestinos e israelenses, e o publicou juntamente com outros dois (de mesma temática) no livro “Rascunhos do Absurdo” (2010). A impressão que tenho é que mais mil anos passarão e esse conflito não acabará, por isso a sensação de perenidade que ele me sugere.

Céu de bombas

Por que choras por mim meu pai?

Cumpri com o que me coube
nessa Gaza de feras.

Em cada criança morta, sacrificada,
um objetivo insano.

Despeço-me do dia
sob flashs e bombas.

Uma fome doentia
molhou teu corpo com meu sangue.

Estrelas dos profetas cruzaram os céus
e pulverizaram os créditos de minha infância.

A ambição de poder comeu meu destino.
Com a força, roubaram-me o sorriso.

Meu pai, nem sei perguntar por quê.
Não tive tempo para me nutrir de ódio.

Pensando bem, pai,
que às lágrimas partam.

Transpareças a cor de teu rosto indignado
nas telas indiferentes do Mundo.

Sobretudo creia, pai,
creia no triunfo do olhar de tua filha,
fosco de morte,
voltado para esse lindo céu,
reluzente de bombas,
nessa noite de um domingo de fúria.

Obs: Saiba mais sobre o poeta acessando


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O ritmo dos pássaros e dos fantasmas


Jorge Elias Neto

Uma ilha dentro da ilha. Poderia definir assim o local onde conversávamos, tranquilamente, sobre literatura. A constante discussão, entre os raros interessados, sobre a evolução – aí já se encontra embutida uma fonte de discordância excitante – que ocorreu na poesia brasileira nos últimos cem anos... Bravos companheiros e fantasmas, nós, na antessala do auditório da Biblioteca Pública Estadual. Uma ilha dentro da ilha...
Uma ilha, cujo centro – outrora presépio –, hoje, nos implora um resgate do abandono; cujos bairros sofrem um processo de verticalização que de tão absurdo já ouvi alguém dizer que é ecologicamente o mais correto.
Fazer o quê, aqui ilhado, discutindo o poema enquanto lá fora se desfazem os tons poéticos e se constroem vitrines de automóveis.
E foi justamente um automóvel que interrompeu nosso entusiasmo e nos levou à varanda.
Deparamos com algo comum: um carro cujo motor enfurecido urrava para funcionar. No mais, tudo transcorria “tranquilo”: os pedestres passavam, as crianças jogavam futebol na quadra. Realmente nada de anormal acontecia.
Mas um bando de anus brancos foi buscar repouso (era fim de tarde) nos galhos da aroeira, justo onde estacionara o carro.
Logo que os entusiasmados anus começaram a lançar seus piados costumeiros, os meninos interromperam a pelada, e o que estava mais perto da grade de proteção passou pelo buraco utilizado como acesso,  aproximou-se do pé da árvore e foi logo lançando um: − Cala boca p... (e o som se propagou como uma pedrada que calou imediatamente os anus e os poetas).
Um amigo me cutucou e mostrou uma pichação no muro da quadra: “O ritmo mudou”. Saímos da varanda rindo do que consideramos, naquele momento, um chiste.
Restou o ruído do carro para o bem dos ouvidos sensíveis de crianças que não aprenderam a apreciar a poesia.

Conheça o blogue do autor clicando AQUI.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma busca pelo sentido do Ser


 texto apresentado nesta quinta-feira, 23 de agosto, no Seminário sobre o autor Capixaba, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo

Rascunhos do Absurdo[1], obra de Jorge Elias Neto, se inicia com uma questão ontológica basilar: o sentido do Ser. Sua lírica insiste em um discurso de cariz filosófico, marcadamente existencialista, e reflete o esvaziamento de valores do homem moderno, abandonado em si mesmo e desnorteado ante a desestabilização de verdades universais, frente às quais está solitário, pois imerso em um processo de massificação, reificação e desumanização das relações. Trata-se de uma poesia contemporânea, poesia do desconexo, do descontínuo, fragmentada, cujo discurso denuncia um mundo que se desestruturou, ao mesmo tempo é a poesia que busca, nesse mesmo mundo, uma nova construção de sentido para o homem.
Criador de imagens cortantes, observador e crítico da condição humana, Jorge Elias Neto, desde Verdes Versos[2], seguindo dictum próprio, chega ao seu segundo livro propondo uma poesia que, carregada de um arsenal reflexivo, sabe que o poema não é apenas um fenômeno de linguagem, mas também de idéias, devendo partir da realidade vívida e vivida para a apreensão de um sentido maior. Desse modo, o poeta constrói seus poemas tateando o indizível, em sua busca da ciência de desinventar (1º de janeiro de 2008, p. 74), sem nunca perder de vista aqueles que nada entendem da solidão (idem).
Como médico cardiologista, Jorge enfrenta no seu cotidiano inúmeras situações limites entre vida e morte que ajudam a acentuar o caráter metafísico da sua poesia, e isso, para o autor, tornou-se uma questão de vida: trabalhar a idéia de morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem frente a essa locomotiva... Por isso a sua naturalidade poética não poderia ser outra: o Expressionismo existencialista, no que este tem de mais visceral - ou como diz Jorge de Souza Araujo a respeito da poesia de Adelmo Oliveira -, verdadeiramente íntimo e interiorizado, não desdobrável, não amoldável[3] a circunstâncias outras que não seja a consciência de mundo, na qual predomina a visão pessoal do artista e não uma poesia que aspire capturar a realidade, mas que seja um reflexo da reflexão do poeta frente ao seu tempo. O poeta transmite sua angústia criticando a exploração do homem pelo homem, toda sorte de estupidez e misérias. Por isso,

Disseste que a corda
apazigua os desencantados.

Disseste que a terra treme
nas bordas do despenhadeiro.

A terra não tem nada a ver
com teu descontentamento.

Ela é acima de qualquer suspeita.
É que a luz só atinge tuas costas.

Hoje, a estupidez não é mais um traço:
é um demônio que se agiganta.
(Noir, p. 58)

Em Ser e Tempo, Heidegger propõe a pergunta acerca do sentido do ser. Pode-se dizer que tal pergunta apresenta o propósito de retomar o antigo questionamento ontológico sobre o ser dos homens, visando ao mesmo tempo uma explicitação da própria compreensão de ser.  
Jorge Elias Neto encontrou na linguagem poética a sua maneira de investigar o ser humano, seus desejos, seus medos e frustrações, ou seja, o que está interno em nós e não a exteriorização, a superficialidade. É com a poesia, neste caso com Rascunhos do Absurdo, que ele empreende a sua busca pelo sentido do Ser, pois este não é o resultado de algo postiço ou acrescentado, mas um constituinte do poeta enquanto indivíduo. E desse livro o leitor não sai incólume, pois os melhores poemas nele inseridos são justamente aqueles que refletem o sentido trágico da vida, justamente aqueles que ganham dimensão cada vez maior toda vez que relido e repassado, como acontece aos “poemas gêmeos”, Corpo tombado (p. 64) e Poema ao morto (p. 65), também a Circo (p. 71) e Poema para o homem contemporâneo (p. 77), assim como a outro belo espécime da fauna versificatória brasileira, capaz de arrebentar a cabeça do leitor incauto, que é Cristo de pão:

Herdei de meu pai
esse Cristo forjado em miolo de pão.

Esse crucifixo que, pacientemente,
foi moldado no almoço de domingo;
em seus dedos, amassado,
em seus lábios umedecido.

Um Deus criado
pelo provedor de minha casa
durante o eterno silêncio
comigo repartido.

E eu aprendi que da bolinha de massa
se forja um ídolo.

Ao final da refeição, meu pai me estendeu
o Cristo na cruz.

Eu o peguei
e ele se partiu.

Foi duro para mim
ver Deus quebrar-se em minhas mãos.
(p. 79)

Trata-se de um poema dessacralizador, desorientador. Logo no primeiro dístico o poeta nos apresenta um “Cristo forjado em miolo de pão” para no final admitir que lhe fora duro “ver Deus quebrar-se em minhas mãos”. Não se trata apenas, possivelmente, da revelação de um “eu” profundo, descrente frente às “verdades” seculares, mas de uma experiência reputada indizível que expressa-se e comunica-se pela imagem[4]. Imagem que não explica, antes convida-nos a recriá-la e, literalmente, a revê-la[5]. Nesse sentido, o poema é um intermédio entre uma experiência original, avassaladora, e um conjunto de ações e vivências posteriores, que apenas adquirem consistência e sentido com referência à experiência primeva, fundadora, que o poema consagra no presente. E se é presente só existe neste agora e aqui de sua presença entre os homens. Para ser presente o poema necessita fazer-se presente entre os homens, encarnar na história[6]. Afinal, o homem é um ser histórico e fala das coisas que são suas e de seu tempo.
O tempo em Rascunhos do Absurdo, apenas para lembrarmos Vinícius de Morais, não é “quando”, mas o presente. Essa constatação reflete no significado último do poema que não é dito de maneira explícita, mas é o fundamento da poética de Jorge Elias Neto até aqui. Poesia feita no presente, para o tempo presente e para o advir, pelo menos enquanto o homem – ser temporal e relativo – for este que vemos aí, no mundo, conquistador de espaços que mal são  desbravados se transformam em cinzas.
           
            Rascunhos do Absurdo é composto por quatro capítulos: “Livro de Notas”, “O Estalo da Palavra”, “Gaza” e “O encantamento do poeta Maratiba”, este último dedicado a Miguel Marvilla, também poeta, amigo e incentivador de Jorge, falecido em seus braços, na emergência de um hospital.
O primeiro capítulo se configura por apresentar poemas extremamente líricos, muitos deles nos remetem à própria poesia ou à função do poeta – / barriga de aluguel (Ventre Vazio, p. 29), ao convívio familiar, como em Dever de Casa, um poema imagético e sensorial, quase palpável, onde o poeta assegura à amada

Fazer por onde
sempre tê-la ao meu lado
para dizer-te, sempre:
Eu Te Amo.
(p. 39)

            Suas palavras, sem qualquer prolixidade, tornam seus pensamentos consecutivamente compreensíveis, levando o poeta à busca de apurar seu discurso no sentido de transmitir o mais claramente possível seu enunciado, pois são plasmadas com coloquialidade, sem perder a elegância. É a necessidade de ser entendido e sua mensagem apreendida que servem de alimento necessário à sede do poeta.
            O segundo capítulo é marcado por aquela temática que reflete o estranhamento do homem no mundo, impregnado por um sentido de deslocamento frente à ruptura de valores da modernidade e à queda de paradigmas, antes institucionalizados e agora questionados ou até mesmo negados. É nessa atmosfera movediça da contemporaneidade que sobrevive o poeta. Sua lírica reflete o esvaziamento de valores do homem moderno, abandonado em si mesmo e desnorteado ante a desestabilização de verdades universais, como atesta o exemplar poema A Prazo:

Levem-me as horas
para os caprichos mundanos!

Já destaquei a etiqueta.

Tomei posse do indivíduo.

Será que não vêem
no meu ante-braço
o carimbo de “pago”?
(p. 63)

            Esse poema capta e revela o momento histórico da humanidade, em que o poeta tornou-se um alijado no seu tempo. Então

Já que a palavra é uma puta:
rasguem o poema.

Já que a rima é farta; e o poeta
      um estorvo,
que se recompense o primeiro idiota
a me cortar a carne.
(Balada da Carne, p. 69)

            Em Gaza, terceiro capítulo, Jorge Elias Neto apresenta-nos uma poesia de forte apelo social e grande senso humano, preocupada – naquele momento de sua escrita – com os últimos desdobramentos do confronto entre palestinos e judeus, fazendo coro à indignação que toma conta dos povos desde os tempos da criação do estado de Israel, em 1948, quando Gandhi se manifestou dizendo que

O que está acontecendo na Palestina, não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico[7].            

            Quase seis décadas após, José Saramago se manifesta sobre o mesmo conflito, utilizando a imagem do franzino Davi que mata em combate o gigante filisteu, Golias, dizendo que

Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a "poética" mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinos para depois negociar com o que deles restar[8].  

            O fato é que Israel suscitou uma sensibilização mundial em favor da causa palestina, inclusive por parte dos poetas. Notoriamente, o poeta mais importante nesse contexto é o palestino Mahmud Darwish (a quem essa parte do livro é dedicada), o precursor de uma geração de autores da vertente denominada Poesia Palestina de Combate, surgida após a ocupação de 1967, que inclui os palestinos Samikh Al Qassem, Fadwa Tukan e Tawfiq Al Zayad. Em Gaza a poesia de Jorge Elias Neto comunga e se amalgama ao canto desses tantos outros poetas em um grito uníssono, fazendo-se ouvir em todos os cantos do planeta, pois retratam os absurdos e os horrores desse conflito desigual e desumano.
            Por detrás de todas as guerras percebe-se a inteira ausência de amor ao próximo, que, na verdade, reforça no poeta (Jorge Elias Neto) a incerteza quanto às verdades seculares, como a crença em um Deus que já não é refúgio para suas angústias. O homem passa a ser o criador de suas verdades e realidades, porém completamente aturdido pelo sentimento de abandono, por isso diz-nos que Ao poema, cabe / despejar sobre o chão, / e na cara dos facínoras, / uma resma de dúvidas (A Praça, p.94), ao invés de bombas, deflagrando o absurdo do existir frente ao mistério. E refletindo sobre o engajamento de Darwish (que fora expulso de sua casa, com a família, pelo exército de Israel), Jorge refaz seu caminho, e na celebração do viver encontra sentido na atitude exemplar do poeta palestino que Não azulava as dúvidas com preces / e entendia a sujeira como um vício da realidade.

            Enfim, pensar e sentir estão imbricados num propósito de induzir o homem à revelação da verdade do ser e ao conhecimento de si. A poesia, nesse ínterim, torna-se a expressão maior de significados do homem, transcendendo a superficialidade da expressão na busca de se exprimir o inefável. Nesse contexto, pautado nas questões essenciais que afligem o homem moderno, em que o ser se lança na investigação identitária de si mesmo e no descortinar do sentido da vida, pulsante na concretude do mundo, é que se enquadra Rascunhos do Absurdo, uma obra comprometida com o homem e com a vida, em que o autor tece suas críticas ao mundo moderno, pragmático e utilitarista, refletindo o espasmo do homem frente ao mundo por ele criado e sua busca na ressignificação da vida.



[1] Neto, Jorge Elias. Vitória: Flor&Cultura, 2010.
[2] Neto, Jorge Elias. Vitória: Flor&Cultura, 2007.
[3] Oliveira, Adelmo. Poesia Seleta de Adelmo Oliveira. Ilhéus: Mondrongo, 2012.
[4] Paz, Octavio. Signos em rotação, Trad. Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Perspectiva, 1972.
[5] Idem.
[6] Ibidem.
[7] Disponível na internet, no site do Comitê Democrático Palestino – CDP – Brasil. Visitado em 15/04/2011. Link: http://somostodospalestinos.blogspot.com.br/2011/04/terceira-intifada-palestina.html.
[8] Disponível na internet, no site da Fundação José Saramago. Visitado em 10/01/2009. Link: http://caderno.josesaramago.org/20584.html.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Anotações Capixabas – I


Estou em Vitória, Espírito Santo, onde às 14 horas, na Biblioteca Pública do Estado, farei uma palestra – em evento da UFES – sobre o livro Rascunhos do Absurdo, de Jorge Elias Neto, cuja poesia se inicia com uma questão ontológica basilar: o sentido do Ser. Sua lírica insiste em um discurso de cariz filosófico, marcadamente existencialista, e reflete o esvaziamento de valores do homem moderno, abandonado em si mesmo e desnorteado ante a desestabilização de verdades universais, frente às quais está solitário, pois imerso em um processo de massificação, reificação e desumanização das relações. Trata-se de uma poesia contemporânea, poesia do desconexo, do descontínuo, fragmentada, cujo discurso denuncia um mundo que se desestruturou, ao mesmo tempo é a poesia que busca, nesse mesmo mundo, uma nova construção de sentido para o homem. Para se ter uma ideia da potência da poesia de Jorge Elias Neto, apresento a seguir um dos seus poemas que estão entre os meus favoritos.

NOIR

Disseste que a corda
apazigua os desencantados.

Disseste que a terra treme
nas bordas do despenhadeiro.

A terra não tem nada a ver
com teu descontentamento.

Ela é acima de qualquer suspeita.
É que a luz só atinge tuas costas.

Hoje, a estupidez não é mais um traço:
é um demônio que se agiganta.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sonho no Absurdo


Jorge Elias Neto

I

O poeta sabe a textura exata do sonho.

E por perceber que os números são símbolos
que poderiam arrastar seu povo,
foi o primeiro a se equilibrar nos destroços.

Não azulava as dúvidas com preces
e entendia a sujeira como um vício da realidade.

Caminhando em silêncio,
observou que a ausência de espaço
não havia poupado nem mesmo as sombras.

Homens desencontrados
cruzaram o limite da incerteza
e bradavam:

– Não pedi esse conflito.
Mas, na dúvida,
deixo a arma engatilhada!

Nunca foi do poeta o primeiro momento...

Poema publicado no livro Rascunho do Absurdo (Flor & Cultura, 2010) dentro de um capítulo intitulado Gaza, que é dedicado ao poeta palestino Mahmoud Darwish, autor do antológico poema Carteira de identidade que, por indicação do escritor Miguel Carneiro, o leitor poderá conferir clicando aqui.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Está no ar a 60ª leva da Diversos Afins


Fabrício Brandão e Leila Andrade colocaram no ar a 60ª leva da revista virtual Diversos Afins com um conteúdo muito especial. Eis os destaques:

- O olhar do fotógrafo Paulo Neves numa exposição que registra paisagens humanas.
- Poemas de Edson Cruz, Sylvia Beirute, Basilina Pereira, Jorge Elias Neto, Ana Guillot, Rui Almeida, Líria Porto e Henrique Pimenta.
- Entrevista com a escritora Márcia Denser.
- Contos de Maurício de Almeida, Ana Peluso, Márcia Denser e Rodrigo Melo.
- Uma crônica de W. J. Solha sobre a poesia de José Bezerra Cavalcante
- Larissa Mendes volta suas atenções para o que há de novo no cinema argentino

 É só clicar AQUI e degustar

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um belíssimo poema de Jorge Elias Neto


Singelo e repleto de sentidos, o poema “Uma carteira e seus sentidos”, de Jorge Elias Neto, uma criação emocionada e dedicada às vítimas da chacina de Realengo, no Rio de Janeiro, nos mostra que um poema pode ser engajado sem ser panfletário, que nele pode haver um criticismo em relação aos valores humanos, às leis e aos limites a partir da reflexão ponderada do poeta, onde a paixão está substituída pelo equilíbrio. E mais, o poema traz em si uma forma modelar, comprovando que o poeta que pretende fazer um bom papel jamais poderá perder de vista que de livre o verso tem apenas o nome.

Uma carteira e seus sentidos
 às crianças de Realengo

Observe essa carteira vazia
– ociosa –
desocupada.
Entre na dimensão do absurdo
– no que se contorce –
e resvala,
e desperta,
e nos cala.

Observe essa carteira vazia
–ruidosa–
maculada.
Ventre da omissão confusa
– que nos paralisa –
e enoja,
e perpassa ,
e retalha.

Observe essa carteira vazia
– poderosa –
enfeitada.
Lembre da profusão do sangue              
– que se dispersa –
e tinge,
e respinga,
e nos entala.

Observe essa carteira vazia
– fervorosa –
devotada.
Sente a celebração da loucura
– que consente –
e trucida,
e cega,
e nos abala.

Observe essa carteira vazia
– tenebrosa –
mal fadada.
Sente a emanação do ódio
– que se alastra –
e devora,
e abraça,
e nos transpassa.

Observe essa carteira vazia
– silenciosa –
abandonada.
Crente na devassidão do mundo
– que surpreende –
e ignora,
e reproduz,
e nos arrasa.

Observe essa carteira vazia
– deliciosa –
delicada.
Prenhe de ilusão confusa
– que consente –
e insinua,
e seduz,
e nos agarra.

Observe essa carteira vazia
– espaçosa –
desejada.
Crente na criação do sonho
– que compreende –
e ama,
e perdoa,
e nos concede a graça.

Blog do Jorge Elias Neto:

domingo, 9 de janeiro de 2011

Papo de passarinho


O poeta e amigo, Jorge Elias Neto, lá das bandas do Espírito Santo, escreve sobre Silêncios, meu livro de estreia no habitat da poesia japonesa. Para ele a obra possui “uma escrita simples que trás o belo, e nos dá o que nos preenche a alma – a emoção”.
De minha parte, só tenho a agradecer.