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terça-feira, 28 de junho de 2011

No Inferno (excertos)


Mergulhando a imaginação nos vermelhos Reinos feéricos e cabalísticos de Satã, lá onde Voltaire faz sem dúvida acender a sua ironia rubra como tropical e sanguíneo cactos aberto, encontrei um dia Baudelaire, profundo e lívido, de clara e deslumbradora beleza, deixando flutuar sobre os ombros nobres a onda pomposa da cabeleira ardentemente negra, onde dir-se-ia viver e chamejar uma paixão. (...)
A boca, lasciva e violenta, rebelde, entreaberta num espasmo sonhador e alucinado, tinha brusca e revoltada expressão dantesca e simbolizava aspirar, sofregamente, anelantemente, intensos desejos dispersos e insaciáveis. (...)
Mas, a sua atitude serena, concentrada, isolada de tudo, traía a meditação absorvente, fundamental, que o encerrava transcendentemente no Mistério.
E eu, então, murmurei-lhe, quase em segredo:
— Charles, meu belo Charles voluptuoso e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen, profeta muçulmano do Tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e delicado! Onde está aquela rara, escrupulosa psicose de som, de cor, de aroma, de sensibilidade; a febre selvagem daqueles bravios e demoníacos cataclismos mentais; aquela infinita e arrebatadora Nevrose, aquela espiritual doença que te enervava e dilacerava? Onde está ela? Os tesouros d'ouro e diamante, as pedrarias e marchetarias do Ganges, as púrpuras e estrelas dos firmamentos indianos, que tu nababescamente possuíste, onde estão agora? (...)
Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Augusto e tenebroso Vencido! Inolvidável Fidalgo de sonhos de imperecíveis elixires! Soberano Exilado do Oriente e do Letes! Três vezes com dolência clamado pelas fanfarras plangentes e saudosas da minha Evocação! Agora que estás livre, purificado pela Morte, das argilas pecadoras, eu vejo sempre o teu Espírito errar, como veemente sensação luminosa, na Aleluia fúlgida dos Astros, nas pompas e chamas do Setentrião, talvez ainda sonhando, nos êxtases apaixonados do Sonho...

Cruz e Souza, em Evocações (Edição póstuma - 1898).

Clique AQUI para baixar a edição completa de Evocações, belíssimo livro de poesia em prosa que não pode deixar de ser lido.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Antífona: da Liturgia Católica à Poesia


Antífona é uma resposta ou a outra parte da liturgia católica. Esta função deu origem ao Canto Antifonal, onde uma peça musical é executada por dois coros que interagem entre si, às vezes cantando frases alternadas. Na poesia essas duas vozes também podem ser ouvidas, como no poema abaixo que, apesar de ter sido estruturado em quadras, bem poderiam ser dispostos em dísticos.
Apesar da Antífona de Cruz e Souza ser mais famosa, essa, do poeta baiano Fernando Joaquim Pereira Caldas (1884-1922), além de ser um poema melhor, me parece muito mais adequado à estrutura original do canto.

ANTÍFONA
Fernando Caldas

A existência como a entendo,
firme executo:
entre o prazer e os males, vou vivendo
o meu minuto.

De meu credo a alma me instiga
a atos diversos:
amo com amor, trabalho a terra amiga
e faço versos.

É a glória de ser fecundo
que me extasia:
amar, lutar, cantar! E dar ao mundo
mais poesia!

Na alegria e em meio ao pego
ficar sereno!
Com a grandeza vil do sábio grego
ante o veneno.

Laborar, vencendo as dores
é o meu tesouro:
ver a terra, por mim, aberta em flores
e frutos de ouro.

E com anseio insatisfeito,
como num cofre,
depor o verso lúcido e perfeito
n’alma que sofre.

Que é a glória de ser fecundo
que me extasia:
amar, lutar, cantar! E dar ao mundo
mais poesia!