segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Haikais de Cyro de Mattos

Há pouco tempo, o mestre e amigo Carlos Verçosa, falou-me sobre os haikais de Cyro de Mattos, o que me causou espanto, pois até então não sabia que o poeta de “Vinte poemas do rio” cultuava também essa forma peculiarmente japonesa de se fazer poesia.
De volta a Itabuna, com o intuito de publicar uma antologia do haikai feito por autores grapiúnas, fui falar com Cyro sobre o assunto. Ele retirou de sua estante, na FICC (Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania), instituição da qual é o presidente, o livro “Os enganos cativantes”, 2002, e lá estavam os seus haikais, pulverizados por toda a obra, porém, inseridos em um ou outro poema, como naquele que dá título ao livro, formado por três haikais. Eis o primeiro deles:

Signo que me veste
Soltos ao vento os enganos
Cativantes canto

Mais adiante, no poema “O boi”, pág. 79, encontramos três haikais compostos ao modo de Guilherme de Almeida. Vejamos:

Deu adeus à flor.
Culpado mas sem pecado.
Morre sem rancor.

II
Síntese de boi:
Pasta em conserva de lata.
Verde que se foi.

III
Teus mudos mugidos
Em mim ressoam sem fim
Nesses verdes idos.

Feliz pela descoberta, cada vez mais tenho a certeza que o legado grapiúna não são suas fazendas de cacau e tudo o que as envolve, mas seus escritores, especialmente seus poetas, como Cyro de Mattos, um escritor versátil, que transita seguro pelo conto, pela literatura infantil, romance, poesia, e agora, descubro, também pelo haikai.

sábado, 26 de setembro de 2009

ALERTA AO HOMEM PROGRAMADO

assista o vídeo, leia o poema...

video

Para que a ética, o amor e a moral
se os nossos valores não são nossos,
se informados por informação alguma
e pobres de reais valores como agora?
Se apenas beija-flores em floresta incendiada
choraremos nossos mortos.
Vejam as pedras ao longo do rio;
elas nos permitem passar à outra margem,
mas precisamos pulá-las
e molharemos um pouco as pernas.
Não quero com isso advertir o mundo,
mas quem quiser que viaje pela Serra da Canastra,
que vá ver onde nasce o São Francisco.
Não sou Bazin! Estou mais para Truffaut,
sonho com a conciliação entre arte e indústria.
Ademais, é necessário saber sobre a função da arte,
que não existe escola isenta, neutra ou pura,
que somos embalados e vendidos em mercados
determinados pela aferição da audiência.
Somos re-colonizados cotidianamente pela comunicação,
esfinge que devora os incautos
com seus programas e verdades homogeneizadas,
enquanto a apatia das universidades cria novos professores,
sábios mestres da verdade e da moralidade sem moral.
Somos feras nos esportes náuticos e automobilísticos,
construímos satélites,
realizamos transplante de coração
e outras cirurgias sofisticadas,
mas não impedimos que nossos pares morram de fome.
Domesticamos bichos
e agora cuidamos da gente assim como cuidamos dos bichos:
deixamos que ambos remexam o lixo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

SONETO AO VAQUEIRO...

ao amigo e velho vaqueiro consangüíneo, Miguel Carneiro

O vaqueiro, de Juracy Dórea (1980); Mista sobre azulejo

( pr’ uma aquarela à Emilio Moura )

Esquecidos, no vento, procuramos
por aquilo que outrora fomos – tanto
faz se a luz que nos guia agora é pranto,
se tudo se desfez... Nós perduramos.

Tudo torna a viver, e reencontramos
a força de existir, o próprio encanto
que transfigura o nosso grito em canto
oportuno, o caminho pr’onde vamos:

é a memória a deter a nossa sina
de ter, nos pés, os giros que há no mundo
e a vontade de amar que o Amor ensina,

porque a alma há de fazer sua própria sorte
ante o esplendor mais límpido e profundo
ou do anjo frio que nos trará a morte.
Silvério Duque

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Declaração de Princípios

Para o poeta Zéduardo Souza

Quem andou em cavalo baio
Nunca esquece a montaria
Chuva de molha não enche barreiro
Pedra de toque não é cantaria

Eu sou madeira de dar em doido
Eu sou barro bom de alvenaria
Martelo, prumo e serrote
Sou poeta da Bahia

No tempo de meninote
Andei tudo que é freguesia
Farra pra mim só três noites
Homem valente não é sinal de valentia
Bacalhau já foi comida de pobre
Asfalto foi quem trouxe a carestia

O diabo já morou no céu
Chuva do sul é invilia
Marmanjo já teve na escola
Conversa de bêbado nunca teve serventia

Eu sou madeira de dar em doido
Eu sou barro bom de alvenaria
Martelo, prumo e serrote
Sou poeta da Bahia.

Miguel Carneiro,
poeta e contista baiano

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Haibun Sabático

Seguindo de Itabuna ao litoral, poucos quilômetros margeando o Cachoeira, chegamos a Ilhéus. Na Baía do Pontal, um barquinho, por vinte minutos, Rio do Engenho acima, entre manguezais bem conservados, atinge seu destino, um pequeno sítio à sua margem.
No caminho, fauna e flora. O mangue fomenta um ecossistema rico e frágil ao mesmo tempo. Enquanto o homem não interfere de modo mais drástico, permanece equilibrado e viril.

Um barco no rio
e um avião no céu –
felizes brindamos.


Paira sobre o rio
como o beija flor na flor –
Martin pescador.


No manguezal
atento a todo momento –
caranguejo azul.

NOTA:
O haibun é um poema formado por um texto em prosa poética que precede o (os) haicai (s), no máximo três.

domingo, 20 de setembro de 2009

Fotohaiga 5

no galho mais alto
da mais frondosa mangueira –
medita o urubu.

Fotografia de Pedro Montalvão

sábado, 19 de setembro de 2009

Fotohaiga 4

galopa no céu
feito um corcel alado –
urubu rei.

Fotografia de Pedro Montalvão

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Fotohaiga 3

nenhum estalido –
nada abala o esplendor
de uma obra-prima.

Fotografia de Pedro Montalvão

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Fotohaiga 2

céu azul turquesa –
é tanta beleza que ele
dispensa as estrelas.

Fotografia de Pedro Montalvão

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Fotohaiga

pergunto-me atônito –
que fazem as parabólicas
na bela paisagem?

Fotografia de Pedro Montalvão

domingo, 13 de setembro de 2009

A festa da poesia e da cultura baiana em Cachoeira

No dia 26 de setembro de 2009 (sábado), a partir das 20h, no Largo d’Ajuda, em Cachoeira - Recôncavo Baiano, acontecerá a 6ª edição do Caruru dos Sete Poetas – Recital com gostinho de dendê.
Dentre os sete poetas convidados: Antônio Carlos Barreto, Crispim Quirino, Juraci Tavares, Nelson Santana, Sérgio Bahialista, Urânia Rodrigues Munzanzu e Vânia Melo. Haverá a apresentação do espetáculo cênico-poético do CRIA Poesia e do grupo musical afro-barroco Gêge Nagô. Será publicado um Poemário (antologia dos 7 poetas) durante o evento.
O Caruru dos Sete Poetas – Recital com gostinho de dendê é um evento que une à literatura um momento da tradição cultural e religiosa baiana, caruru dos sete meninos, de reverência aos Ibejis, da tradição afro-brasileira, e aos santos católicos São Cosme e Damião. Numa analogia aos sete meninos das manifestações religiosas, este projeto promove o encontro de sete poetas para recitar seus versos e celebrar nossa cultura e arte literária. É a miscelânea da poesia, comida baiana, lançamento de livros e performances artísticas com o propósito de integração e fruição de uma tradição cultural baiana.
Marcado pela diversidade de linguagens, tendências, correntes literárias e de público, o que se busca no processo de realização do evento é dar movimento e magia à literatura. É agregar pessoas para ouvir poesia na voz do/a poeta. É evidenciar a poesia do corpo e da dança, do teatro, do palhaço, da música. É unir sete escritores, com alma de criança e poeta, para celebrar a literatura e nossas tradições culturais.

sábado, 12 de setembro de 2009

Antifonia poética

Antífona é uma resposta ou a outra parte da liturgia católica. Essa função deu origem ao Canto antifonal, onde uma peça musical é executada por dois coros que interagem entre si, às vezes cantando frases alternadas. Na poesia essas duas vozes também podem ser ouvidas, como no poema abaixo que, apesar de ter sido estruturado em quadras, bem poderiam ser dispostos em dísticos, o que em verdade são. Apesar do poema "Antífona", de Cruz e Souza, ser mais famoso, esse, de Fernando Joaquim Pereira Caldas (1884-1922), um desconhecido poeta baiano, além de ser um poema melhor, me parece muito mais adequado à estrutura original do canto.

ANTÍFONA
Fernando Joaquim Pereira Caldas – 1884 / 1922

A existência como a entendo,
firme executo:
entre o prazer e os males, vou vivendo
o meu minuto.

De meu credo a alma me instiga
a atos diversos:
amo com amor, trabalho a terra amiga
e faço versos.

É a glória de ser fecundo
que me extasia:
amar, lutar, cantar! E dar ao mundo
mais poesia!

Na alegria e em meio ao pego
ficar sereno!
Com a grandeza vil do sábio grego
ante o veneno.

Laborar, vencendo as dores
é o meu tesouro:
ver a terra, por mim, aberta em flores
e frutos de ouro.

E com anseio insatisfeito,
como num cofre,
depor o verso lúcido e perfeito
n’alma que sofre.

Que é a glória de ser fecundo
que me extasia:
amar, lutar, cantar! E dar ao mundo
mais poesia!

Leitura exterior:
Veja aqui o poema de Cruz e Souza: http://www.overmundo.com.br/banco/um-olhar-sobre-antifona-de-cruz-e-sousa

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Apagando as velinhas

dois poemas do meu amigo Heitor Brasileiro Filho,
em homenagem à passagem do seu 45º aniversário

CRACK

Não havia mais
caminho


uma pedra


REPARTIÇÃO

A malevolência
esconde o lixo
embaixo do tapete

Ao entardecer
os garis coletam
nossas almas

NOTA:
Heitor Brasileiro Filho é natural de Jacobina, Bahia, nascido em Setembro de 1964. Radicado em Ilhéus desde 1994. Licenciado em Letras e pós-graduado em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa (UESC). Ensaísta e poeta com destacada participação em concursos literários.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

SUBMISSO

Gustavo Felicíssimo
Sob o teu jugo me crivo
submisso e rijo.
Ao que pese, não me pesas.
Pousas na espada
que te toca a alma
que te alivia a face
que te faz regozijar.

sábado, 5 de setembro de 2009

Fabuloso

no campo inimigo
o perigo tem um nome –
luís fabiano

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Euclides da Cunha poeta?

100 anos da morte do autor de “Os Sertões”
Colóquios literários, eventos, debates, ensaios e até um romance baseado na vida e obra de Euclides da Cunha estão vindo a público em função dos 100 anos da sua morte.

Figurando entre os mais importantes escritores da literatura brasileira, Euclides da Cunha morreu em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade, em um duelo com o militar Dilermando de Assis, amante de sua mulher, Ana. Nascido em 1866, na então província do Rio de Janeiro, cursou a Escola Politécnica e tornou-se engenheiro militar. Mas sua vocação sempre foi a escrita. Em 1897 viajou para Canudos, no sertão da Bahia, como correspondente do jornal A Província de São Paulo, futuro O Estado de S. Paulo. Foi designado como correspondente do jornal para cobrir a Guerra de Canudos, quando o Exército Brasileiro enfrentou e derrotou a resistência popular liderada por Antônio Conselheiro. As reportagens que escreveu para o jornal paulista transformaram-se em base para os relatos de “Os Sertões”, ícone da literatura brasileira.
Nas três famosas partes em que se divide - “A terra”, “O homem” e “A luta” - Euclides pôs o Brasil inteiro, as peculiaridades do nosso povo e a complexidade da nossa história. “Sua obra teve uma repercussão que o tempo só tem feito crescer”, afirmou o crítico literário Tristão de Athayde.
Euclides da Cunha pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico e à Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1903. Além do clássico “Os Sertões”, publicou também “Contrastes e Confrontos”, “Peru versus Bolívia” e “À Margem da História”, editado após sua morte. Oito anos após matar Euclides, Dilermando de Assis também assassinou o jovem Quidinho – Euclides da Cunha Filho –, que tentava vingar a morte do pai.

Cem anos após a sua trágica morte, Euclides da Cunha continua vivo na admiração e no respeito dos seus milhões de leitores, pela admirável obra, entretanto, pouca gente sabe que o escritor também fora poeta, de talento parco, é verdade, mas que à luz da historicidade não pode e não pode ser ignorado. Como prova o poema “Eu quero”, escrito ao que nos parece, aos 17 anos de idade.


EU QUERO [1883]

Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
_ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...

Eu quero aí viver _ o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar _ os tristes prantos meus...
E envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!

Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...
Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,
Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das ásperas cachoeiras que irrompem do sertão...
E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da solidão...

Sugestões de leituras externas:

Revista de HISTÓRIA da Biblioteca Nacional, edição de agosto, onde há uma coletânea de textos sobre Euclides da Cunha e sua maior obra

Outros poemas de Euclides da Cunha em:
http://www.culturabrasil.pro.br/ondas.htm

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O Credo de um Poeta

De Jorge Luis Borges. Trecho do livro “Esse Ofício do Verso”

Quando escrevo, tento ser fiel ao sonho e não às circunstâncias. Claro, em minhas histórias (dizem-me que devo falar sobre elas) há circunstâncias verdadeiras, mas de algum modo senti que essas circunstâncias deviam ser contadas com certo quinhão de inverdade. Não há satisfação em contar uma história como realmente aconteceu. Temos de mudar as coisas, ainda que as achemos insignificantes; caso contrário, não devemos nos tomar como artistas, mas talvez como meros jornalistas ou historiadores. Embora suponha que todos os verdadeiros historiadores soubessem que podiam ser tão imaginativos quanto os romancistas. Por exemplo, quando lemos Gibbon, o prazer que desfrutamos dele é bastante afim ao prazer que desfrutamos da leitura de um grande romancista. Suponho que ele tivesse de imaginar as circunstâncias. Há de ter tomado a si mesmo como tendo criado, num certo sentido, o declínio e a queda do Império Romano. E o fez de modo tão magnífico que não me interessa aceitar nenhuma explicação.
(...) Quando escrevo, não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem, acreditava na expressão. Eu lera Croce, e a leitura de Croce de nada me serviu. Eu queria expressar tudo. Pensava, por exemplo, que, se precisava de um pôr-do-sol, devia encontrar a palavra exata para o pôr-do-sol - ou melhor, a mais surpreendente metáfora. Agora cheguei à conclusão (e essa conclusão talvez soe triste) de que não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão.

Encontros Literários na ALB

Participarei deste evento no dia 04 de dezembro, apresentando a obra do mestre e amigo, o poeta Ildásio Tavares.

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Vale a pena conferir

Aleilton Fonseca lança seu novo romance na capital paulista

Acontece neste dia 02 de setembro, quarta-feira, na Livraria da Vila, em São Paulo, o lançamento naquela cidade do mais novo romance de Aleilton Fonseca, “O Pêndulo de Euclides”, pela Editora Bertrand Brasil. O livro é baseado na vida de Euclides da Cunha e nos relatos de “Os Sertões”, assim como fizera anteriormente com Guimarães Rosa em “Nhô Guimarães”.

clique para ver imagem maior

Sugestão de leitura externa:
entrevista de Aleilton Fonseca ao blog Prosa e Verso, da globo.com, às vésperas do lançamento de “O pêndulo de Euclides” no Rio de Janeiro. Acessem:
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/08/17/euclides-canudos-por-aleilton-fonseca-214637.asp